terça-feira, 29 de maio de 2012

o sonho de toda mulher?

É senso comum: "casar é o sonho de toda mulher".

Passei a vida inteira escutando essa máxima. E passei boa parte dessa mesma vida discordando da assertiva. Afinal, casar nunca havia sido meu sonho e eu conheci inúmeras mulheres que afirmavam se sentir como eu. Portanto, o meu bom senso dizia: casar não é o sonho de toda mulher, e ainda é o pesadelo de muitas.

Lembro da primeira celebração de casamento da qual participei.
Minha madrinha era a noiva e um tio - cada vez mais próximo e querido a partir daquele dia - era o noivo. Por ser afilhada, segundo minha mãe, deveria vestir uma roupa bem bonita, fazer um penteado com laquê (inesquecível!), talvez tenha usado até maquiagem.
Eu tinha apenas oito anos e ainda trago na lembrança a aborrecidíssima manhã de passeio pela rua das noivas (304/5 norte) em busca do vestido ideal. Ao entrar em uma das lojas, não sei o que deu na cabeça da minha mãe para afirmar: um dia vai ser você, minha filha! Respondi de pronto: eu? só se for com este vestido aqui - apontando para algo bizarro de veludo vermelho-vinho.

Foi na adolescência que, creio, tomei consciência - ou sensibilidade - do meu coração partido e passei a escondê-lo sob uma couraça de pouco sentimento.
Perdia várias noites de sono, chorando ao som da 105 FM ("para ouvir e amar" é programa que existe até hoje). Mas pela manhã seguia forte para a aula: a mais inteligente da turma, e ai! do menino (não muitos) que resolvesse dizer que eu era bonita = sangue!
Logo depois, percebi que não levava muito jeito para andar me machucando e mudei de estratégia. Após o primeiro namoro rompido, o primeiro amor rejeitado, aprendi a lidar com o corpo sem mexer (profundamente) com meu coração. Libertador, pensava eu.

Eu sou libriana, com ascendente em peixes, lua em áries e vênus em libra (de novo). Então, assim, esperar que eu não me apaixone ou que eu deixe de acreditar no amor é melhor fazer sentado. Conselho? Deita e relaxa, porque não acontece.
Sim, eu já me apaixonei antes e eu já acreditei antes. Mas deste ponto em que me encontro posso afirmar algo com clareza e paz: depois de alcançar um nível razoável de autoconhecimento e de autoaceitação, a intensidade do sentir muda muito. Eu sempre me apaixonei com medo de me machucar e, assim, eu sempre acreditei desconfiando. A verdadeira entrega faz toda a diferença.

Esta paixão - nada imortal posta a qualquer chama - me dava a certeza de que o compromisso é feito no e pelo coração. Suficiente. Para que assinar papel então? Para que testemunhas do que não se pode ver? Para que afirmar qualquer coisa para sempre, se este mesmo coração que se compromete apenas sabe que para sempre será livre?
(Seria a paixão um amor leviano? Leve? De engano?)

Ora, mas por que não fazer uma festa? Festa é tão bom. De casamento, então?, adoro! Todo mundo bem arrumado, cheiroso, com sorriso no rosto. A família e os melhores amigos emanando todo seu carinho e toda sua fé sobre aquela relação. É um dia feliz, vamos combinar, né? Nunca fui a um casamento triste.
 Acontece que todas as minhas amigas noivas com quem conversei falavam sobre umas cifras que nunca achei que valesse a pena. (Boa desculpa do meu racional para fugir da dor provocada pela minha certeza de que não era merecedora de um amor desses que merece ser festejado, né?) Por que não pegar este tutu e fazer umas três boas luas-de-mel? Eu sempre gostei tanto de viajar!

E blablabla. O que mudou? Experiência, maturidade e aceitação.

Depois de anos convivendo comigo mesma percebo a importância do ritual em minha vida.
Eu tenho poucas lembranças da minha infância, e todas estão ligadas a ritos de passagem e celebração. O único aniversário que transcorri triste foi aquele que decidi não fazer festa, não fazer bolo, não cantar parabéns, não ver quem eu amo. Eu conto (no sentido numérico e verbal) as fases da minha vida por meio das marcas deixadas pelos grandes eventos ritualísticos: os reveillons, as formaturas, as mudanças de endereço...
O ritual é importante para mim. Ok, enfim, o ritual é importante para o humano e ponto.

Hoje, eu me sinto segura. Sinto-me segura comigo e com o meu amor. Hoje, eu acredito sem sombras. Hoje, como nunca antes, eu me sinto madura o suficiente para me comprometer, para assumir um compromisso com a minha vida adulta e com a vida adulta do homem que eu escolhi (e que me escolheu, oba!!!). Hoje, eu me sinto madura para assumir o poder da palavra e o poder da atitude: sim, eu aceito.

E como resultado de todo este autoconhecimento e de toda esta autoaceitação, hoje, eu posso deixar para trás a criança zombeteira, a adolescente magoada, a jovem incerta. Hoje, eu posso aceitar meu lado romântico e posso acreditar ser merecedora deste amor que me encontrou, com a certeza de que ele vale ser festejado (e muito!). Hoje, eu estou disposta a entregar a minha fé mais pura ao homem que a despertou, e dividi-la com todos os grandes amores que a vida me deu até aqui - minha família e meus amigos.

Eu, sinceramente, não acho que o sonho de toda mulher é se casar. Tem muita mulher por aí. E tem muito sonho por aí também. Mas hoje este é meu sonho. E é muito gostoso ver ele tomando forma, se tornando realidade, ao lado de quem satisfaz minha alma e aquece meu coração.

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